sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O REINO DO PONTO: RESUMO HISTÓRICO

O Reino do Ponto foi um antigo Estado helenístico, localizado a norte da península do Mar Negro, entre os rios Fasis e Halis. Nos dias do Rei Mitrídates VI Eupátor (120 a 63 a.C.) os pônticos chamavam seu reino de Capadócia do Ponto ou Capadócia do Euxino em contraste com ao reino da Capadócia no interior da Anatólia. Ao leste da Ásia Menor, o país era limitado pelos países da Armênia, Capadócia, Galácia, e Paflagônia. A região geográfica do Ponto ia desde o curso inferior do Rio Hális, ao Oeste (perto da Bitínia), em direção ao Leste, ao longo da costa, até o limite sudeste do mar. Ao longo da fértil linha costeira, o clima é quente no verão e moderado no inverno. O interior forma o canto noroeste do planalto central, interrompido por muitos vales fluviais, muito férteis onde se cultivavam cereais. As encostas dos montes eram cobertas de florestas e produziam madeira para a fabricação de navios. Colonizada inicialmente pelos gregos, a região tornou-se uma satrápia persa e depois conseguiu sua independência tornando-se um reino que durou pouco mais de dois séculos, mas que deixou sua marca na história da Antiguidade.Abaixo, região primordial do Ponto.

O nome Ponto deriva de como os gregos chamavam o Mar Negro: Ponto Euxino. Inicialmente, eles o chamavam de Skythikos Pontos, isto é, "Mar dos Citas". Os citas eram um povo nômade que habitava dentre outros lugares, as costas norte e nordeste do Mar Negro o qual chamavam de Aksaina que quer dizer “sombrio, azul escuro”. Os gregos compreenderam Aksaina como axeinos que significa hostil aos estrangeiros. Quando se familiarizaram em navegar em suas águas, os gregos então o chamaram de Pontos Euxeinos: mar que é favorável ao estrangeiro; mar amigável. Abaixo, imagem via satélite do Mar Negro.

Inicialmente a região era parte da Capadócia, região do interior da Anatólia. Hititas, Assírios e outros povos como os Leucosírios (“sírios brancos”), Citas e os Chalybes, habitavam ou viveram como nômades na região. Os Chalybes são citados em algumas fontes antigas como a primeira gente a usar o carvão em fornos de ferro, criando assim o aço, embora eles certamente não entendessem o conceito completo. Os gregos jônios fundaram em cerca do século VIII cidades comerciais (Sinope, Trebizonda, Cerasos, Side, Cotyora, Amisos e Apsaros) ao longo do litoral, mas o povo do interior tinha vínculos íntimos com a Armênia ao Leste. Era também considerado o lar das lendárias guerreiras Amazonas. Abaixo, a colonização grega no Ponto e em torno do Mar Negro.

Dos séculos VI e IV a.C., a região do Ponto tornou-se uma satrápia (província) do Império Persa. Em 363 a.C., o sátrapa Ariobarzanes II de Quíos conseguiu submeter as tribos do interior e estabilizar a região. Depois das batalhas de Grânico e de Issos em 334 a.C., Alexandre, o Grande, iniciou as suas campanhas na Anatólia e o poder da Pérsia na região foi derrubado. A região do Ponto não foi ocupada inicialmente pelos exércitos gregos, gerando-se um vazio de poder que consolidou Mitrídates II de Quíos como governador. Assim também sucedeu com Ptolomeu de Comagene no século II a.C.
Depois da morte de Alexandre, a Ásia Menor foi atribuída a Antígono Monoftalmos pelo tratado de Triparadiso de 321 a.C. Em 301 a.C., Antígono foi vencido por Seleuco I Nicator (imagem ao lado) na Batalha de Ipso, mas este não ocupou imediatamente a Ásia Menor. O centro e o oeste foram anexados por Lisímaco, que já governava a Trácia. Nestas circunstâncias, Mitrídates I aproveitou as disputas entre os diádocos(sucessores de Alexandre) para se declarar independente e expandir os seus domínios, mantendo longas guerras com os selêucidas.
Mitrídates I Ktistés ("o fundador") teve que fugir com alguns partidários para a fortaleza de Cimiata, na Paflagônia. Depois da derrota das forças de Antígono e Demetrio I na batalha de Ipso, Mitrídates consolidou o seu poder lutando durante vinte anos contra os Selêucidas. Até regressar a Sinope e autoproclamar-se rei (Βασιλεύς, basileus) do Ponto no ano 281 a.C. A sua dinastia perdurou até 64 a.C. Deste modo uma dinastia persa conseguiu sobreviver no mundo helenístico, enquanto que o Império Persa não o pôde fazer. Abaixo, o Ponto e os reinos helenísticos.

A partir de Mitrídates III, o reino começou a expandir-se. A expansão foi progressiva, começando pela costa leste e seguindo pela costa norte do Mar Negro, incluindo a Criméia. Mitrídates V Evergetes recebeu a Frígia de Roma, mas foi arrebatada ao seu sucessor Mitrídates VI. Este empreendeu uma luta terrível contra os romanos durante décadas, sendo finalmente vencido por Cneu Pompeu, e o reino anexado progressivamente a Roma. Abaixo, o Reino do Ponto antes da tomada de Sinope em 183 a.C.

A metade ocidental foi anexada primeiro à província da Bitínia, formando a dupla província de Ponto e Bitínia. A metade oriental foi entregue ao gálata Dejotaros, embora voltasse a ser independente temporariamente sob Farnaces II, e voltou a unir-se à Galácia por um breve período 47-41 a.C. Com a morte de Dejotaros, o Reino do Ponto terá durante alguns anos reis fantoches impostos por Roma, até à sua anexação definitiva em 63 com a sua união à província da Galácia-Capadócia.
No ano 62, Nero dividiu o país em três províncias:Ponto Galático, a oeste; Ponto Polemoníaco, no centro; e Ponto Capadócio, a leste. Severo Alexandre uniu-o à Galácia numa só província, desde Diocleciano estabeleceu quatro províncias: Paflagônia, Diosponto, Ponto Polemoníaco, e Armênia Menor. No início do século IV, voltou ao sistema de duas províncias: Diosponto e Ponto Polemoníaco, permanecendo assim até ao Império Bizantino. Abaixo. o Reino do Ponto em 100 a.C.
As conquistas de Alexandre possibilitaram que a cultura e as relações comerciais gregas influenciassem o Oriente; a costa da Anatólia já há séculos recebia influência grega através das colônias. No campo militar, a influência grega introduziu o uso de falanges em todo Oriente, combinando com as antigas formas iranianas de cavalaria e o arco, práticas que acabaram por ser características dos reis do Ponto.
O Reino do Ponto se caracterizou por uma marcada distinção entre a classe rural e a urbana. A distância social entre as classes altas e as baixas foi acentuada pelas diferenças culturais prevalentes entre elas. As cidades costeiras estavam plenamente helenizadas; em contrapartida, só se pode especular que em algumas zonas rurais penetrou a civilização grega. Os territórios montanhosos longe da costa seguiram apegando-se tenazmente a suas antigas linguagens, costumes e formas de vida. A realeza do Ponto, embora de origem persa, acabou por helenizar-se, pois envolvida que estava por reinos gregos cada vez mais influentes e poderosos. Abaixo, panorama das Montanhas Pônticas.
Os reis pônticos acabaram por adotar os temas da educação grega e os critérios sucessórios das grandes dinastias macedônicas na Ásia e na Europa. Apesar disso, a herança iraniana permanecia, principalmente na população rural; apesar das mudanças que afetavam a elite do reino, o povo ainda via no rei a tradicional encarnação da soberania como nas monarquias orientais iranianas. A cultura do Reino do Ponto foi uma síntese entre a civilização iraniana e a helênica, conservando elementos da época persa e introduzindo outros novos procedentes do helenismo.
Se supõe que, ao não ter uma língua própria, se falava uma ampla variedade de línguas procedentes de algumas regiões da Anatólia: armênio, cário, frígio, grego, gálata, lídio, lício, písidico, sidético ou trácio. No entanto, a partir do século III a. C. a região se estava muito helenizada, pelo que é provável que o grego fosse então o idioma predominante, sendo possível também que os descendentes da aristocracia persa utilizassem o persa antigo.
Ao largo do Ponto, se praticavam distintas religiões correspondentes às tradições dos povos iranianos e aos ritos advindos da Grécia trazidos pela helenização. Os deuses mais venerados foram Zeus, Afrodite e Hércules. Entre os outros deuses indo-iranianos reverenciados no Ponto se incluem Mitra, deidade solar associada à nobreza e aos guerreiros. Ao lado, imagem helenizada de Mitra. O Ponto, junto com a Pártia, foi um dos refúgios principais do mazdeísmo (zoroastrismo), a velha religião persa. O próprio nome Mitrídates, nome da maioria dos reis do Ponto significa "dom de Mitra". Segundo alguns indícios, no Ponto o direito de sucessão recaía no varão primogênito escolhido pelo soberano, sendo em ocasiões seu próprio irmão. O critério parece basear-se unicamente na opinião real, sem ter em conta a nobreza nem o exército. A corte pôntica com sede em Sinope se estava organizada segundo o modelo helenístico, com uma série de dignitários (phíloi), que formam parte do conselho real (synédrion). A admiração dos reis pela continuação dos costumes orientais que estabeleciam certa providência divina, junto com o costume grego de render culto aos heróis, deu base e forma externa ao culto da dinastia real. Tal culto ocorreu semelhantemente em Comagene, reino surgido nas mesmas circunstâncias que o Ponto. Destaca-se a imagem mítica da infância de Mitrídates VI, cheia de tópicos comuns aos reis fundadores de grandes impérios, devendo superar numerosas provas, passar um período de ascese, demonstrar sua capacidade e seu controle sobre os elementos naturais, combater com feras: é a imagem de ser divino eleito e predestinado à glória.
A província do Ponto é citada em escritos judaicos e cristãos. Filo, escritor judeu do século I d.C., disse que os judeus se haviam espalhado a toda parte do Ponto. A Bíblia relata que judeus da província do Ponto estavam presentes em Jerusalém na festa do Pentecostes: "Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia" (Atos 2:9) e, cerca de 30 anos depois, o Apóstolo Pedro dirigiu a sua 1.ª epístola canônica (62-64 d.C.) aos "eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia" (1Pedro 1:1). Em Atos, Lucas narra que um judeu de nome Áquila, natural do Ponto, viajou para Roma, e daí veio estabelecer-se na cidade grega de Corinto, onde conheceu pessoalmente o apóstolo Paulo (Atos 18:1, 2). O cristianismo e suas variações (o gnosticismo cristão) floresceu na região. De Sinope surgiu Márcion, heresiarca do gnosticismo no século II. Entre 111-113, Plínio, o governador romano da província da Bitínia e Ponto, descreve em suas cartas ao Imperador Trajano as atividades do cristãos e seus credos nesta área.
Se o Reino do Ponto deixou de existir, o Reino dos Céus teve nele grande acolhida até a islamização da Anatólia. Que voltem esses dias em que o Ponto era conhecido pelos testemunhos de fé que dava. Amém.Abaixo, a diocese ( região administrativa romana) do Ponto em cerca do ano 400 d.C.


FONTES:
Wikipédia. Versões em portugês, inglês e espanhol.
http://www.apollonius.net/whitesyrians.html
http://www.unrv.com/provinces/pontus.php

4 comentários:

  1. Parabéns, sou entusiasta da antiguidade e adoro sua escrita.

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    1. Obrigado, Fernando. Também sou entusiasta de História Antiga. Quanto à escrita, não é lá original. É tradução e adaptação dos textos ou partes de textos indicados nas fontes.

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  2. Excelente iniciativa meu caro professor. Quiça a cristandade brasileira deixa de lado toda esta patuscada momesca, toda indolência mental se volte para o real, o estudo fundamento nos fatos e principalmente consubstanciado na Palavra. PAX

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    1. Obrigado, Jesse. Fico feliz por ter contribuído. Que Deus o abençoe ricamente.

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